quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sonho de uma noite de Inverno (o maxilar do cadáver)

Sonhei com um mundo quase perfeito. Não havia perdas, não havia dor, não havia infelicidade. No fundo, o cadáver até se sentia muito feliz. Fechado no caixão forrado a cetim, estava confortável e passava horas e horas a sonhar.

Acordei depois com os pés gelados, um deles a atirar para o roxo. Esfreguei-o com genica até o sangue cavalgar por ele fora e até recuperar o arzinho corado. É sempre o mindinho, o anão frágil. Foi quase uma aparição! De repente, do nada, surge aquela figura singular. Um anão de nariz pontiagudo, sobrancelhas espessas, olhar feroz, andar curvado. Como todos os anões, tinha um «não sei quê» de frágil, mas ao mesmo tempo de aterrador.

Pior do que sonhar com os nossos medos é ter medo de sonhar. E não é este o sentimento de todo um povo, recusar-se a perseguir o sonho com receio de que se torne pesadelo? É a sina lusa! Lusa ou algarvia. A sina algarvia será sonhar com coisas boas, doces… Praia, cheiro a mar, sol. Sonhos lindos; nunca pesadelos! Porque estes são sonhos com coisas más e estas não fazem parte daquele mundo quase perfeito.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Delírios (o esterno do cadáver)

Há por cá muito boa gente que deveria ser literalmente obrigada a ligar-se ao planeta Terra através de uma âncora que se amarrasse ao pescoço. Talvez assim descessem do mundo da Lua, onde passam grande parte do tempo a delirar!

Nesses momentos vejo o céu sarapintado de bolas verdes e amarelas e fico com os olhos esgazeados quando sinto o odor dos pinheiros no ar. Coisa boa de sentir é também a areia nas patas descalças: a vertigem das cócegas com a massagem é de babar e chorar por mais! E por falar em babar, lembro-me logo da baba de camelo. Sobremesa saborosa, mas só de pensar no mome que lhe atribuíram não consigo comê-la, causa-me náuseas. Esquisitices!

Não percebo bem porquê! Porque é que se há-de ser esquisito se um delírio é tão eficaz para resolver ou apaziguar os nossos desejos?

Os desejos são como chocolate branco: quanto mais se come, mais apetece comer. Os desejos que eu tenho são muito diversos: desde um homem giro até um delicioso leite condensado! Ou então chocolate branco. Ou então chocolate negro. Ou então mel com bolachas. Ou então doce com pão. Ou então pão com manteiga e açúcar. Muito açúcar. Muito doce. Ai doce de ovos! Aqueles das barricas de Aveiro. Ai, então e toucinho-do-céu... E Dom-Rodrigo. E Nestum com mel… Oh moços! Nestum com mel…

Mas lembrem-se: não há mel sem fel! Quem o diz é o povo, na sua imensa sabedoria terra-a-terra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Espécie de poema (a tíbia do cadáver)

De joelhos
Perante o desejo
De mais um dia
De mais uma noite
De mais um sonho ausente
De gente que não nos sente
De gente que não nos quer sentir
Por só se sentirem
Inconsciência da vida
Tudo o tempo levará
Nas suas asas marotas
Que balançam cá e lá
Para voar como loucas
No lindo céu azulinho
Quase ficamos roucas
Por apanharmos tanto friozinho
Precisamos de um solzinho
Que faça das palavras soneto
E de nós
Vida.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um conto (o fémur do cadáver)

Era uma vez um conto de réis que vivia num país de maravilhas à beira-mar plantado. Um belo dia perdeu a cabeça e resolveu fazer uma operação plástica. Cortou nos zeros, dividiu-se por 200 e mudou de nome. Agora chama-se euro. Só que anda muito aborrecido…

Mais perde! Assim terá dois trabalhos: aborrecer-se e deixar de estar aborrecido. Ou seja, tarefas em dobro. E, neste momento de crise, há que poupar-se a esforços inúteis e que não levam a lado algum. Fingir-se de morto sem se mexer. Afinal, é ou não é verdade que burro calado passa por esperto? Mais vos digo que passaria, não fossem as cenouras de conserva que ele comeu ao jantar. Ruminou umas 100 com boca destemida e as ditas aterraram-lhe no estômago que nem tijolos. Baixo a cortina da caridade sobre o resto da cena. Pobre Alfredo…

Sim, pobre Alfredo! Que mais lhe irá acontecer? Quando pensa que as coisas estão a melhorar, lá vem uma onda e deita-o abaixo. Alguém anda com duas estrelas na testa.

Testa grande, diz o povo, significa grande inteligência. Não sei se será bem assim… Aliás, existem outros ditos relacionados com o aspecto físico das pessoas e a sua respectiva compatibilidade com as personalidades. Pêlo na venta significaria pessoa com mau feitio. Nariz arrebitado quereria dizer que se é teimoso. Então, por causa da sua teimosia a senhora Merkl começou a ser impiedosa e resolveu castigá-lo.

Uma chamada ao castigo tem o seu quê de sensual e pode transformar-se numa experiência que marca… Quem não gosta? Eu gosto! Mas é melhor manter essa gaveta de recordações bem fechada a cadeado. E agora? Onde estaria o raio da chave? O Alfredo lançou as narinas no ar e farejou casa fora até sentir o primeiro odor do estranho instrumento de abrir e fechar portas. Escondida no interior da saca de feijões, a chave de três saliências, cor amarela e meio metro de comprimento ia finalmente libertar a última cenoura de conserva a tempo do jantar. Feliz Alfredo…

Grande novidade: o Alfredo encontrou a sua estrela. Finalmente boas notícias começam a acontecer-lhe. O sorriso luminoso voltou à sua face. Como é bom vê-lo feliz! Estar feliz é um estado de alma. Como seria bom que pudéssemos andar felizes diariamente. Mas sabemos que isso é impensável. Há dias em que sem razões aparentes ficamos (ou estamos) profundamente infelizes. Mas o contrário também é real. Às vezes basta acordarmos com um raio de sol ou o canto de um pássaro.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O futuro do turismo no Algarve (o ilíaco do cadáver)

O Algarve é terra de boas gentes e lindas paisagens. A segurança e a hospitalidade são o orgulho desta região! É importante dinamizar o nosso Algarve, aproveitando a crise do Egipto e da Tunísia. Até porque não se pode comparar o que não é comparável. Penso até que há indicadores irrefutáveis do forte crescimento que vem por aí.

Parafraseando o comandante Reis Ágoas, sabemos como começa mas nunca sabemos como vai terminar. Pudéssemos nós prever o futuro e tudo seria tão diferente… Ou não. Porque parece haver quem goste disto assim mesmo, incerto. Como eu. Pois qual é a melhor certeza do que saber que não se sabe o amanhã? o futuro dele é igual ao nosso: uma sucessão de imprevisibilidades. Hoje há falésia, amanhã não há falésia. Hoje há areia, amanhã não há areia. É o esconde-esconde.

Hoje em dia as crianças não ligam a estes jogos de rua mas há uns bons anos passavam horas nesta brincadeira. Uma tapava os olhos e contava até 10, enquanto outras se escondiam. Se tudo corresse bem, vinha o último e gritava: «Salva todos!» Será que este era mesmo capaz de salvar todos? Tenho as minhas dúvidas! É que na verdade «todos» era já uma multidão que em pânico ansiava por uma saída desta situação dramática.

Temos mesmo que aproveitar as oportunidades! É triste que o drama dos outros possa vir a configurar a chave de sucesso de outros… Não há dúvida que a situação que se vive no Egipto e na Tunísia é deveras dramática. A falta de segurança para os turistas é assustadora. Mas isso é o que dizem as pessoas que se assustam por tudo e por nada. Ainda ontem cheguei ao pé de um colega que estava a tirar uma fotocópia e o dito deu cá um salto!

Um salto em frente, dois passos atrás… Esta é a sina de muitos, mas não a queremos para nós. Pelo contrário, o «futuro» não pode esgotar-se numa década, mesmo que tinha sido de tirar o fôlego ou qualquer outra coisa que nos deixasse felizes. Olha os cavalos marinhos, por exemplo. E os doces de amêndoa da Cinderela também, com o doce de ovos que escorrega pelo formato de pêra abaixo. Não direi uma década, mas uma boa dezena deles. Para a goela.

Contudo, não se deve exagerar pois poderá desencadear uma reacção alérgica. De preferência deve ser ingerido a seguir às refeições. Creio que poderá causar alguma indigestão. Causará? As indigestões são comuns e acontecem frequentemente quando se viaja e se experimentam novas comidas, algumas picantes. Contudo, esse não é problema no Algarve, em que a gastronomia se baseia em pratos leves, grelhados, produtos naturais. Enfim, uma dieta verdadeiramente mediterrânica.