sexta-feira, 25 de março de 2011

Carpideiras (o trapézio do cadáver)



Ai meu querido, que me deixaste viva e foste morrer, logo agora que tens viagem marcada e paga. Vou ver se a troco por um bilhete para o Além… Ai meu querido, que já estavas morto e não sabias… Ai…

Mas bem sentidas as coisas, há que ver que assim mortinho já não sofres (embora desconfie que os calos nos pés eram a tua única dor de alma). Nós agora é que estamos lixados, pois temos de verter lágrimas por ti e não sei porquê elas não querem cair (estou com a profissão por um fio por tua causa, cadáver ranhoso. Cadáver ranhoso).

Ranhoso é pouco. És um reles sem mãe nem pai. O que me pagaram para te chorar nem para uma buchazinha dá. Não dou buchazinha nenhuma. Elas que se alimentem por conta própria e que afoguem as suas lágrimas sozinhas. Vão é chorar daqui a uns dias se o coelhinho subir ao poleiro! Aí sim carpirão as suas mágoas.

Foi de tal forma que as lágrimas encheram as correntes dos rios e subiram os níveis das barragens afastando por mais 100 anos o risco de seca na região. Vem aí uma praga de gafanhotos!

Ai meu querido, que te finaste e agora te vais na barriguita de um saltitão...

quinta-feira, 24 de março de 2011

RRRRRRRRRRRRRRR (o etmóide do cadáver)

Rapaziada, rosa radiosa reinará. Rosadamente regressará rumando regionalmente. Rastejando, os rebeldes revoltosos rangerão rancor reactivo. Redigiu, resmungando, o rol de recomendações e raspanetes que a Rosa referiu como reforço ao relatório.

Relatório ritualizado que foi
rasgado
a roupa respectiva. E repetindo a roda-viva ressuscitaste. Reclamei e resolvi rifar-te.

Rapidamente refeito rondei ruas e ruelas rafeiros e ri-me.
Ri-te, ri-te! Raríssimo e raro o riso.

Repara: o riso rosa raro rodeia-nos. Radiante! Resplandecente! Real! Rico! Recompensador!

quarta-feira, 23 de março de 2011

PEC (o esfenóide do cadáver)

PEC nosso que estais no Parlamento, venha a nós uma solução. Seja feita a vontade do teu povo, assim na Europa como em Portugal. Foi precisamente em Portugal, nomeadamente no Algarve e em Olhão, na Secundária Francisco Fermandes Lopes, que fica para os lados da Biblioteca Municipal, que era um antigo hospital, dizia eu, foi lá que conheci o meu primeiro PEC. Era um colega de turma do 7.º ano que era tão baixinho, tão pequenote, que o apelidaram de PEC. Esse foi o meu primeiro PEC!

Acho que deviam arranjar outra estratégia, pois cada vez temos mais PEC’s e crescimento nem vê-lo. E se experimentássemos pôr fermento? Com ele os bolos ficam XL… Deve ter o mesmo efeito no pedaço de tripa com carne, julgo eu. Ou – esperem! – não estamos a falar do Plano de Encher Chouriço? Então a que PEC é que se referem? Estou baralhada.

Referem-se, certamente, a PECado. Ou a PEC de esPECado. Ou a PEC de PECaminoso. De qualquer forma, referem-se a um plano de estupidez e de calvário.

Abaixo com os «Chuchialistas»! Rosas proibidas! É tempo de uma boa laranjada. E sabem como se faz uma boa laranjada? Espremendo muito bem as laranjas de modo a deixá-las absolutamente em frangalhos.  

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Árvore (o martelo do cadáver)

Hoje é o Dia Mundial Da Árvore. A minha árvore preferida é a genealógica porque tem ramos parecidos comigo. Claro que estou a falar da minha árvore.

Gostava de descobrir a das patacas! Segundo dizem, estava plantada junto à loja do papagaio amarelo, que todos os dias apregoava, alto e bom som, se caíam ou não patacas. Lá vem mais uma, dizia ele.

Mais uma, mais 10, mais 100, mais 1000, venham milhões para nunca faltar ar puro aos seres vivos. Ou mortos, como eu, cadáver eternamente adiado. Mas hoje é um dia especial e não quero lembrar-me de tristezas (como a vez em que perdi o olho na pesca, quando me inclinei para espreitar o peixe que mordera o isco. Demorei 48 horas a encontrá-lo. Uma dor de vista, bem vos digo). Partilho antes convosco o episódio em que me enamorei do ossinho de pé mais jeitoso do “underground”. Foi em cima de uma oliveira. Pronto, já partilhei. E só por isso (ou também por isso) concordo com o Dia Mundial da Árvore! Oh, yeah.

Espero, contudo, que os animais não amuem por não terem o seu Dia Mundial… Em especial os coelhos, meus parentes homónimos. Olha se os coelhos dão em embirrar com as árvores? Lá se vão as limas, as oliveiras, as silvas e os matinhos…

sexta-feira, 18 de março de 2011

A comissão (o palatino do cadáver)

 
Se eu soubesse o que sei hoje, tinha mas é trabalhado à comissão. Provavelmente teria arrecadado mais qualquer coisinha. Até porque tendo em conta o trabalho árduo que a velhota me tem dado, bem o mereço. Todas as noites é penico para cá, muleta para lá, dentadura em elixir e banana esmigalhada com bolacha Maria. E não reclamo, não senhor. Mas já me mandavas a merda da comissãozinha, não achas??

Estás a falar comigo? Eu não! Jamais venderia estes ossos por umas luvas: «Jamé!» Comissão só em grande, talvez um jackpot…

Seja o que for, o que vier à rede é peixe… Ou não. Há quem tenha já pescado botas, pneus, sanitas… Mas sabem o que quero dizer: a cavalo dado não se olha o dente. Bem, é melhor deixar-me de frases feitas e venha de lá o pilim.

Até porque a malta anda aflita. Cá por mim já andei a verificar as rotundas da cidade para ver a que poderá eventualmente render mais. Mais uma comissão? Só se for para mim… Isto porque, como é evidente, de comissões está o inferno cheio. Espero bem nunca integrar nenhuma. Ai, deixa-me virar para este lado do caixão…!

quarta-feira, 16 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

Carta ao Pai Natal (o cúbito do cadáver)

Caro Pai Natal,

Fui um cadáver muito bem comportado! Não te surpreendas pois com o rol de pedidos que te faço, nem com o momento escolhido para pedir: Natal é quando cada um quiser. Começo a olhar para cima e peço-te, meu velho, que me devolvas o meu antigo poiso. Onde já se viu trocar de poleiro com a criatura que lá está?!

Será o King Kong? Boa! Seja quem for, celebraremos com bons vinhos da região.

Além disso, também te quero pedir tudo a dobrar. Vê se me podes realizar esse desejo. Não deve ser difícil… Tu também vens a dobrar, não é?

É preciso é que apareças e tragas prendas boas, não é meias e cuecas! Olha, sabes o que era mesmo fixe? E até chuchu? Vestires as ceroulas com a menina das maminhas ao léu dos postais algarvios (que tanto ajudou a vender o destino fronteiras fora), pegares nas renas e no trenó e partires para o Brasil. Lá também há Sol e pelo menos não nos fazias a nós sombra com a tua pança. Fora isto, quero barbies.

Ah! E não te esqueças de deixar crescer barbas brancas e um senhor bigode, assim estás muito deslavado… Venham lá esses presentes, a malta é porreira pá!!

quinta-feira, 10 de março de 2011

O que é que o Eu tem? (a mandíbula do cadáver)

As mãos gretadas esticaram o último cigarro na direcção do corpo roliço que esperava o táxi. Os três partiram: vício, mulher e carro. Agora só podia contar com ele – chamado Eu –, sem gabardina ou galochas para a chuva.

Mas tudo isto não combinava com o meu «eu». Em vez de me proteger da chuva preferia senti-la a tocar no meu corpo, a escorrer pela face. E pela face sinto as lágrimas correrem sempre que me entristeço ou que me comovo. E comovo-me facilmente quando vejo cenas do quotidiano que me desagradam, quando oiço histórias de velhos abandonados ou desprotegidos, quando leio um livro ou assisto a um filme que me toca profundamente. O que é que eu tenho diferente dos outros? Provavelmente sou mais sensível que a maioria e protejo-me com uma capa forte.

A capa serve para o Eu se fingir de super-herói. Com este adereço, o «Super-Eu» consegue voar a velocidades impensáveis e salta de prédio em prédio na cidade. Tanto salto e tanta instabilidade provocou no meu «eu» uma pilha de nervos! Mas, como me pagam para trabalhar e não para me enervar, resolvi saltar de um prédio de 10 andares e voar de prédio em prédio na cidade.

O Eu está mais consigo do que nunca agora. Pode já não ter tomates, nem ela, nem cabelo; quer pedir boleia e nem há caracol na estrada. Mas a bem-aventurança de ser Eu num mundo de caganitas pensantes ninguém lhe tira. O que é que afinal o Eu tem? Existência.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Visita guiada ao museu da palavra (o parietal do cadáver)

No início era o verbo, que substituiu o caos. Ele nasceu para designar e construir sentido. Depois escorregou na parvoíce, perdeu o nariz e passou a respirar pela boca. Começaram a entrar partículas indesejadas de letras por esta cavidade e o ser humano transformou a comunicação em verborreia. Bem-vindos à breve história da palavra.

Queiram por favor colocar os auscultadores à prova de palavrões e os óculos para palavras efémeras. Vai começar a visita!

Estas são as palavras homógrafas. Têm a mesma grafia mas o significado é diferente. A mesma palavra pode alterar completamente o sentido de uma frase.

Como podem verificar, à nossa esquerda temos uma frase bem elucidativa. Se pensarem nela, perceberão que as palavras que a constituem por si nada ou, antes, pouco significam. Mas em conjunto têm um peso totalmente diferente.

E a propósito de peso, chamo agora a atenção para a palavra que podem ver já na vossa frente e que é a maior da língua portuguesa: anticonstitucionalissimamente. É um advérbio e descreve algo efectuado de maneira anticonstitucional. Como podem ver, tem 29 letras.

Ah, e agora vamos para o espaço mais especial do museu. Chamámos-lhe carinhosamente «Z», por ser o quarto onde as palavras dormiram durante séculos. Todas as não ditas e as escritas mas não publicadas estão aqui. Incluindo as do livro «Viagem à origem das espécies em 80 dias – da bactéria Romeu ao homo sapiens Julieta». Temos de entrar em silêncio, pois o mínimo ruído pode acordar as palavras alienígenas e as consequências seriam… Oh não! As letras fizeram sopa de humanos. E o museu fechou as portas. Ficou só a pontuação.

terça-feira, 1 de março de 2011

Declaração Universal dos Direitos do Morto (o desossado)

Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade do morto é direito inquestionável do vivo, considerando que é essencial garantir espaço na tumba para que as ossadas respirem em paz, considerando que o mundo do Além deve estar liberto dos actos de barbárie que enviaram muitos de nós de Alfa Pendular para a morte, considerando que devemos cultivar relações amistosas entre todos os seres (respirem eles ou não, tenham eles corpo ou não), considerando que os já «idos» também têm liberdades fundamentais, a Assembleia Geral proclama:

Artigo 1.º
Todo o ser que nasce tem o direito inalienável de morrer.

Artigo 2.º
Todo e qualquer morto tem o direito de levar um anti-histamínico no caixão, visando a sua protecção contra os fenos.

Artigo 3.º
O morto tem o direito de ressuscitar 3 dias após ter falecido, sob pena de se transformar em zombie e participar num filme com o Michael Jackson.

Artigo mais importante
O morto tem o direito de conviver com os anjinhos.

Artigo 45.º
E terá ainda o defunto o direito de ter jardins floridos por cima de si em vez de vermes. As minhocas conviverão em harmonia com os restos do corpo com o qual poderão brincar (mas não dar dentadinhas) e na lápide constará «viveu feliz para sempre. Até hoje».